MARUJADA DE SÃO BENEDITO DO BAIRRO DOM JOÃO VI

A Marujada de São Benedito é uma manifestação de fé e cultura popular do povo do nordeste paraense, que reúne música, dança e trajes típicos em sua ritualística dedicada ao santo. Essa celebração, marcada pelo sincretismo entre o catolicismo e as tradições locais, foi registrada no livro de celebrações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2025, recebendo o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.

A tradição da Marujada no nordeste paraense teve início em 1798, com a fundação da Irmandade da Marujada de São Benedito no município de Bragança. A irmandade surgiu da união de 14 pessoas escravizadas, que obtiveram permissão de seus senhores para organizar uma devoção a São Benedito, conhecido na região como “Santo Preto”. A partir de então, essa expressão cultural expandiu-se para outras cidades e vilas do estado.

No bairro Dom João VI, em Capanema, a Marujada de São Benedito é fruto dessa disseminação da devoção ao santo. A festividade ocorre desde os anos 2000, sempre a partir do primeiro sábado de dezembro, prolongando-se por oito dias com uma programação que inclui esmolações, ladainhas, levantamento e derrubada do mastro, novenas, danças e louvores. As atividades são realizadas no Barracão de São Benedito e na Paróquia de São Benedito, ambos localizados no bairro.

A iniciativa de trazer a Marujada para a comunidade partiu do músico e devoto Antônio da Silva Sales, o “Capitão Toinho”, que, junto com sua esposa, Antônia Francisca de Lima Sales, Capitoa da Marujada, e alguns vizinhos, organizou uma apresentação de dança durante a festa da paróquia. A ideia atraiu outros moradores, e o grupo foi crescendo ano após ano, fortalecendo os laços entre fé, devoção e cultura popular.

Posteriormente, a comunidade decidiu revitalizar um terreno baldio que era usado como lixão, localizado ao lado da antiga subestação da Rede Celpa (atualmente do Grupo Equatorial). O espaço, antes negligenciado, foi transformado no Barracão de São Benedito, que hoje também sedia o Instituto Rede Cultura em Movimento (IRCEM). O local tornou-se um ponto de encontro para ensaios, novenas, festas e atividades formativas, desempenhando um papel fundamental na autoestima dos moradores e na vida cultural da região.

CIRCUITO ITINERANTE

O Cultura em Movimento antes de ser o nome do Instituto, nasceu em 2017 como um projeto, cujo principal objetivo era criar espaços de divulgação da produção cultural local, oferecendo oportunidades para bandas autorais apresentarem suas músicas, artistas plásticos exporem obras e dançarinos exibirem performances. O projeto surgiu com a meta de percorrer o município, ocupando espaços públicos carentes de programação cultural e levando entretenimento gratuito à população.

Em 2022, expandiu suas fronteiras, transformando-se em um circuito itinerante que percorreu cinco municípios do Nordeste paraense (Capanema, Bragança, Salinópolis, São Miguel do Guamá e Capitão Poço). Promoveu gratuitamente oficinas, workshops, rodas de conversa e shows em praças públicas, com participação especial do Mestre Manoel Cordeiro e atrações locais convidadas.

FESTIVAL RIO OURICURI

O festival nasceu em 2017, fazendo referência ao principal rio que corta Capanema e guarda íntima relação com a memória local. Em suas seis edições (2017, 2018, 2021-2024), consolidou-se como principal palco da música autoral da região, aliando práticas sustentáveis em sua realização, com ações locais de impacto global.

Surge como resposta à escassez de iniciativas que promovam novos talentos, valorizem a diversidade cultural sem distinção e formem público para gêneros como rock, rap, música regional, samba e MPB. Esses estilos, embora pouco contemplados nas agendas municipais, têm contribuição histórica e produção autoral relevante em nível local.

Nascido no contexto da Amazônia interiorana – onde municípios da região do Rio Caeté enfrentam carências de políticas culturais e ambientais –, o festival fortalece a economia criativa e solidária. Valoriza artistas, produtores, estudantes e mestres da cultura popular, defendendo gratuidade, acessibilidade e inclusão, com alcance prioritário a grupos sociais vulneráveis.

BATALHA CSC

No cenário de expansão do hip hop como movimento de transformação social, Capanema, no interior do Pará, viu brotar em 2008 a Cap Style Crew (CSC) – primeiro coletivo de cultura hip hop de Capanema. Hoje, o grupo organiza a Batalha CSC, evento referência em celebração do movimento, que conecta jovens, territórios periféricos e comunidades através da arte, ocupando espaços públicos muitas vezes negligenciados, mas pulsantes de potencial criativo.

Em 2025, a 5ª edição da Batalha CSC integrará o I Circuito de Cultura Urbana e Periférica da Região do Rio Caeté, transformando a Praça da Bíblia em um palco de formação artística e expressão livre. O evento reafirma o hip hop como patrimônio cultural brasileiro e o breaking como esporte olímpico, democratizando o acesso à arte e fortalecendo os quatro elementos do movimento: rap, DJ, breaking e graffiti.

Mais do que um evento, a Batalha CSC é um exercício de cidadania cultural. Em um contexto onde a falta de políticas públicas empurra jovens para a vulnerabilidade social, o hip hop se consolida como ferramenta estratégica de resistência e empoderamento. Enquanto o desemprego, a ausência de oportunidades e a criminalidade avançam nos interiores do país, projetos como esse combatem diretamente a cultura da violência, resgatando autoestima, orgulho e dignidade por meio da arte. Cada edição da Batalha CSC é um ato político: pela cultura gratuita, pela ocupação dos espaços públicos e pelo direito de existir e resistir na Amazônia.

CIRCUITO DE FESTIVAIS

 

O 11º Festival EcoRock contagiou o município de Primavera com shows gratuitos de várias atrações. Os moradores da cidade se somaram às caravanas vindas de outros municípios próximos, além de Castanhal e Belém. O EcoRock é realizado por meio do ”Cultura em Movimento – 1° Circuito de Festivais Musicais do Nordeste Paraense“, com patrocínio do Banco do Brasil e apoio da Prefeitura Municipal de Primavera.

O festival volta a acontecer após três anos. “Cantar aqui hoje é muito bom porque o EcoRock sempre esteve presente na minha carreira, ele acolheu a mim e a muitos MCs da região do Caetés”, conta MC Alezado, de Capanema, que também se apresentou no evento. Além dos sucessos autorais, como “Florianópolis Curupira” e “Mato Azarado”, ele lançou no festival a música nova “Nosso caminho abriu”, em parceria com MC Wez.

O EcoRock foi criado pelo Coletivo Mambembe formado pelos músicos da banda de rock ParaleloOnze, de Primavera, em 2009, com o objetivo de movimentar a cena musical, divulgar a produção autoral independente, formar público e promover o intercâmbio entre os artistas.